17 julho 2011

Papa Bento XVI: Um intelectual na cadeira do pescador

Por Luís Miguel Queirós

Bento XVI deixou marcas enquanto prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e, apesar da sua idade avançada (83 anos), parecia talhado para um pontificado forte, que apostaria em devolver prestígio ao cristianismo, sobretudo numa Europa em crise de identidade e de valores. Mas arrisca-se, afinal, a que a história o venha a olhar como um Papa de transição e que o escândalo dos abusos sexuais domine a imagem que o futuro fará do seu mandato.


Bento XVI é um Papa polémico. Com as revelações de abusos sexuais praticados na Igreja Católica a sucederem-se a um ritmo assustador, e sendo ele próprio acusado de ter contribuído para o seu encobrimento, defini-lo como "polémico" oscila, claro, entre o lugar-comum e o eufemismo. Mas a verdade é que o adjectivo se lhe adequaria mesmo sem os escândalos que vêm enchendo as primeiras páginas dos jornais.

Para lá da controvérsia que têm gerado algumas das suas posições ou atitudes, Bento XVI é também um Papa polémico no sentido em que perguntas como "quem é este Papa?" ou "para onde quer ele levar a Igreja?" continuam a suscitar, cinco anos após ter passado a usar o "anel do pescador" e se ter sentado na "cátedra de S. Pedro", respostas diversificadas, quando não contraditórias.

É verdade que João Paulo II também não foi consensual. Admirado e amado por muitos, outros viam nele um Papa essencialmente conservador, que manteve a ortodoxia em temas como o celibato dos padres, o sacerdócio feminino, a contracepção, o aborto, a eutanásia ou, para não alongar os exemplos, a utilização de células estaminais embrionárias. Mas Karol Wojtyla era um homem carismático, dotado de uma invulgar força anímica e de um raro talento de comunicador. E as personalidades carismáticas tendem a ser vistas, muitas vezes de forma ilusória, como figuras transparentes. Gosta-se mais ou menos delas, mas acha-se que se sabe quem são e ao que vêm.

A imagem pública de Ratzinger é mais ambígua. Mesmo quem o conhece de perto, tanto o compara a um tanque de guerra alemão - ficou célebre a alcunha de Panzer Kardinal -, como descreve um homem discreto e afável, que bem preferiria viver entre os seus livros e discos de música clássica do que tomar em ombros as duras exigências do papado.

O que ninguém lhe nega é a erudição enciclopédica, o arcaboiço intelectual, os dotes de persuasão argumentativa. Ratzinger é, no sentido forte do termo, um intelectual. Um homem que cita com a mesma naturalidade Platão e Santo Agostinho, Lutero e Marx, Adorno e Heidegger, para já não falar de teólogos hindus ou muçulmanos de que pouca gente no Ocidente conhecerá sequer o nome.

Em 2004, pouco antes de ser eleito Papa, manteve um longo debate com um dos mais sofisticados pensadores da modernidade, Jürgen Habermas, que deu origem ao livro As Dialécticas da Secularização (o debate está publicado em Portugal na revista Estudos, do CADC, de Coimbra). Ambos fizeram consideráveis cedências ao adversário, mas o veredicto de empate técnico talvez seja ligeiramente injusto para Ratzinger, a quem Patrice de Plunkett, autor de Bento XVI e o Plano de Deus, chama, num elogio algo equívoco, "um admirável instrumento de precisão".

Autor de "best-sellers"

João Paulo II inflamava multidões de jovens e e era um produto altamente vendável para o merchandising da Igreja Católica. Ratzinger não vende estatuetas e medalhas. Mas escreve livros que se tornaram best-sellers em muitos países e que, na sua Alemanha natal, destronaram a saga de Harry Potter. Em Portugal, a obra Existe Deus?, que reproduz o debate com o filósofo ateu italiano Paolo Flores d"Arcais, esteve durante uma semana no primeiro lugar do top de não-ficção das livrarias Almedina.

O gosto de Ratzinger pelo debate intelectual revela-se especialmente no confronto com filósofos ateus ou agnósticos. Nesse debate com Flores d"Arcais, o então cardeal defendeu a racionalidade da fé e a dimensão pública do cristianismo.

O jornalista Alfredi Urdacci, em Bento XVI e o Último Conclave, sugere que o então cardeal Ratzinger teve um papel decisivo na escolha do polaco Wojtyla, cuja eleição interromperia a sucessão ininterrupta de Papas italianos que durava há quase meio milénio, desde a morte do holandês Adriaan Boeyens, ou Adriano VI, em 1523.

João Paulo II, por seu turno, confiou ao teólogo alemão, logo nos primeiros anos do seu mandato, o cargo estratégico de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, nome que o Santo Ofício - que antes fora a Inquisição Universal - assumiu a partir de 1965. E garantem os mais próximos do falecido Papa que Ratzinger era o seu "teólogo de cabeceira". Não será fácil, portanto, encontrar diferenças relevantes entre ambos em matéria doutrinal, e as poucas "nuances" detectáveis tendem a mostrar um Bento XVI ligeiramente mais "progressista" do que o seu antecessor. A posição de Ratzinger parece mais contemporizadora face aos divorciados católicos que voltam a casar-se, embora não se tenha atrevido ainda a revogar-lhes a proibição de comungar, e a sua perspectiva da sexualidade é claramente mais aberta do que a de Wojtyla.

Outro exemplo é a interpretação que Ratzinger faz da terceira parte do chamado "segredo de Fátima". No "comentário teológico" do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ao texto do "segredo", a centralidade que Fátima assumiu durante o pontificado anterior e a própria interpretação do texto escrito por Lúcia como antecipando o atentado que João Paulo II sofreu em 1981 devem ser vistas como um efeito da devoção pessoal de João Paulo II. É "razoável" que João Paulo II tenha lido assim o texto, dizia o documento de Ratzinger.

O que verdadeiramente separa este Papa do anterior é que João Paulo II era um Papa para as massas e um homem de acção. Demonstrou-o com clareza no diálogo inter-religioso, tornando-se o primeiro Papa a rezar numa sinagoga, a franquear a porta de uma mesquita ou a visitar a Grécia, cujo solo nenhum Papa pisara desde o cisma de 1504, que levou à separação das igrejas Católica e Ortodoxa.

Ratzinger é um intelectual sem o menor talento para contagiar multidões, mas a verdade é que também não acredita numa Igreja de massas para os tempos vindouros. "Seria, sem dúvida, uma expectativa errada pensar que se pudesse verificar uma mudança radical das tendências históricas e que a fé voltasse a ser um grande fenómeno de massas", afirma na sua longa entrevista, publicada em livro com o título O Sal da Terra (1996), a Peter Seewald, um católico que aderiu à esquerda radical no final dos anos de 1960 e que recentemente regressou à Igreja.

Vaticano II foi empolado?

O certo é que muitos católicos e não católicos parecem não saber ao certo o que esperar deste Papa. E isto é tanto mais paradoxal quanto é inegável que nenhum dos seus antecessores recentes esclareceu tantas vezes, e de forma tão cabal e estruturada, o que pensa da Igreja e da missão que esta deve assumir no mundo contemporâneo.

É verdade que também não faltam os que acham que o pensamento e a acção de Ratzinger são de uma clareza meridiana. O problema é que não se entendem entre eles. Bento XVI, dizem alguns, é o polícia da fé, o Grande Inquisidor, um integrista dissimulado, que não hesitou, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em calar vozes dissidentes "à esquerda", como a de Leonardo Boff, referência histórica da Teologia da Libertação, mas levantou a excomunhão que fora imposta por João Paulo aos bispos consagrados pelo tradicionalista Marcel Lefebvre. Um deles, o inglês Richard Williamson, é um assumido negacionista do Holocausto, um homem que afirmou publicamente que os Protocolos dos Sábios de Sião são um documento autêntico, que acredita que está em curso uma conspiração mundial judaico-maçónica e que foi citado pela BBC e pelo jornal Telegraph a dizer que "terão morrido 200 ou 300 mil judeus em campos de concentração nazis, mas nenhum em câmaras de gás".

Outros defendem que Ratzinger já foi, de facto, um progressista moderado, e que agiu ainda como tal no Concílio Vaticano II (1962-65), mas que se assustou de tal modo com os desacatos de Maio de 1968 que virou decisivamente à direita. Seewald afirma mesmo que "sem o seu empenho as reformas do Concílio Vaticano II não seriam concebíveis".

Com Hans Küng, que depois iria entrar em rota de colisão com a hierarquia do Vaticano, o transcendentalista Karl Rahner ou Johann Baptist Metz, precursor das teologias da libertação, Ratzinger foi um dos jovens teólogos que lançaram, em 1965, a publicação assumidamente reformista Concilium. Sete anos mais tarde, fundava com Hans Urs von Balthazar, Walter Kasper e outros teólogos a revista Communio, fortemente crítica dos alegados exageros modernistas da anterior.

Apesar de as aparências parecerem comprovar o fundamento desta alegada "viragem" ideológica de Ratzinger, a maioria dos livros que se têm escrito sobre o novo Papa propõe uma alternativa: ele, asseguram, nunca mudou. As orientações do Concílio Vaticano II é que foram largamente distorcidas e falsificadas pela pressão conjunta dos círculos católicos progressistas e dos meios de comunicação social. Esta é também, no essencial, a tese do próprio Ratzinger, que não se cansa de apelar para a necessidade de se regressar aos documentos efectivamente aprovados no concílio, que teriam sido, segundo diz, grosseiramente sobreinterpretados.


Quando convocou o Vaticano II, depois concluído sob a égide de Paulo VI, João XXIII desejou expressamente um aggiornamento da Igreja. Ratzinger argumenta que esta actualização, no espírito dos padres conciliares, significava apenas apresentar de forma mais eficaz a fé católica ao mundo moderno, e não adaptar os conteúdos da fé às exigências do tempo.


Cerrar fileiras


A veemência das críticas de Ratzinger à evolução da Igreja pós-conciliar não se distingue muito da dos integristas radicais. A diferença é que estes últimos atribuem a responsabilidade do declínio ao próprio Vaticano II, ao passo que o actual Papa defende que o caminho a seguir é voltar às orientações do "verdadeiro" concílio, que, defende, nunca foram cumpridas. "Deve-se reafirmar claramente que uma reforma real da Igreja pressupõe um inequívoco abandono dos caminhos errados, cujas consequências catastróficas já não podem ser negadas", disse o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé numa longa entrevista concedida em 1984 ao jornalista Vittorio Messori, depois publicada em livro com o título Diálogos Sobre a Fé.

Para Ratzinger, foi o facto de a Igreja ter, segundo ele, levado longe de mais a tentativa de se sintonizar com o "espírito do mundo", que a conduziu à crise que hoje enfrenta, marcada pela diminuição drástica de novas vocações, pela redução dos fiéis e por uma perda generalizada de influência, sobretudo na Europa.

Salvaguardadas as devidas distâncias, o dilema que, nesta perspectiva, a Igreja Católica enfrentaria não é muito diferente daquele que afligiu os partidos comunistas europeus após a derrocada do Bloco de Leste. Perante os ventos adversos da História, que estratégia daria mais garantias de sobrevivência: manter apenas a designação e enveredar por uma aproximação à social-democracia ou optar por uma auto-crítica meramente cosmética e cerrar fileiras em torno de uma ortodoxia largamente desacreditada, esperando melhores dias? Mantendo a duvidosa analogia, a receita de Bento XVI é inequívoca: cerrar fileiras.

"Perdemos a visão de que os cristãos não podem viver como vive outro qualquer", diagnosticava o então cardeal Ratzinger. "Hoje, mais do que nunca, o cristão deve estar consciente de pertencer a uma minoria e de estar em contraste com aquilo que é considerado bom, óbvio e lógico pelo "espírito do mundo"." Doutro modo, profetiza, o cristianismo corre o risco de perder "o seu sal e o seu fermento", ou seja: "o "escândalo" e a "loucura" do Evangelho".

O problema, para muitos, é que o Concílio Vaticano II correspondeu também a um dinamismo e uma atitude de reforma da Igreja que deveria ser constante. Na recente carta aberta que dirigiu aos bispos católicos, Hans Küng critica o actual Papa por ter perdido a "oportunidade de fazer do espírito do Concilio Vaticano II a bússola para toda a Igreja Católica, incluindo o próprio Vaticano, e assim promover as necessárias reformas no interior da Igreja". Os mesmos sectores advogam ainda que se colocam hoje novos problemas, designadamente no campo da bioética, que não se punham na época do Vaticano II, e que questões como o celibato ou a ordenação de mulheres se tornaram mais prementes. Razões suficientes para muitos pedirem a convocação de um novo Concílio. Em Portugal, o colunista do PÚBLICO frei Bento Domingues tem sido uma voz a referi-lo com insistência.

Não rejeitando a missão de anunciar a boa-nova que os apóstolos teriam recebido directamente de Cristo, Bento XVI parece menos interessado no número de conversões do que na qualidade do testemunho. E acha mesmo que a Igreja deve largar algum lastro. Referindo-se especificamente à situação na sua Alemanha natal, admitia a Peter Seewald, poucos anos antes de se tornar Papa: "Temos, de longe, muito mais instituições religiosas do que as que podemos cobrir com espírito religioso; e é precisamente isto que leva a Igreja ao descrédito, porque se agarra à configuração institucional mesmo quando já não há nada por detrás." E acrescenta: "Desenvolve-se a impressão de que num hospital ou (...) numa escola, pessoas que, no fundo, não têm nada a ver com a Igreja, são como que obrigadas a seguir posições da Igreja, só porque esta é proprietária e tem poder de decisão."

Um cenário que lamenta, mas que não o surpreende: "Foi sempre assim na História: também a Igreja não foi capaz de se desligar, por si mesma, dos bens terrenos, que tiveram sempre de lhe voltar a ser retirados, o que depois contribuiu para a sua salvação."


Um Papa de transição?


Embora o próprio Bento XVI se veja como um fiel da balança, um dirigente que procura o justo equilíbrio entre tradição e modernidade, pode não ser ilegítimo classificá-lo, em certo sentido, como um radical, alguém que propõe contrariar, em aspectos decisivos, aquela que vem sendo, na prática, a orientação da Igreja Católica ao longo do último meio século. No entanto, ainda não mostrou, nestes primeiros cinco anos do seu pontificado, uma vontade clara de traduzir em medidas concretas as suas convicções.

E isto conduz a um novo paradoxo: um Papa que parecia ter todas as condições para que o seu pontificado, mesmo que previsivelmente breve, marcasse profundamente a Igreja, parece conformar-se com a perspectiva de ser um Papa de transição. Neste estrito sentido, estaríamos perante o inverso do que aconteceu com João XXIII, em quem todos viam um Papa de continuidade, mas que surpreendeu a Igreja e o mundo com a convocação do Vaticano II.

Bento XVI "é muito tímido a fazer reformas e também é céptico sobre a reforma da estrutura", dizia em Roma, à Pública, Marco Politi, um dos mais conceituados vaticanistas, durante anos jornalista do La Repubblica. "Talvez tenha medo de que as reformas coloquem em marcha um processo semelhante ao do Vaticano II, desestabilizando ainda mais a doutrina tradicional."

Estará Bento XVI a desiludir os cardeais que o elegeram? Ou estes elegeram-no justamente por preverem que, enquanto Papa, seria mais conciliador do que deixariam adivinhar as suas posições enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé? Dado que Ratzinger tinha já entre mãos os mais complexos dossiers do Vaticano e, por força do cargo, conhece como ninguém a Igreja mundial, é também possível que aos seus pares tenha parecido sensato dar, por assim dizer, a presidência do conselho de administração ao actual director executivo.

Mas quem é, afinal, este homem, escolhido num dos mais rápidos conclaves de que há memória, e, ao que garantem os vaticanistas, com uma margem confortável?


Baptismo precoce


Joseph Aloïs Ratzinger nasceu a 16 de Abril de 1927, em Marktl am Inn, uma aldeia alemã da Alta Baviera, junto ao rio Inn e perto da fronteira austríaca. Foi baptizado com escassas quatro horas de vida, às 8h30 da manhã. Era Sábado Santo e, na época, não existia ainda a festa da vigília pascal, de modo que a água que iria depois ser usada, ao longo do ano, em todos os baptismos, era abençoada de manhã. Ratzinger foi a primeira criança a receber esta "água nova", como a Igreja lhe chama, o que era considerado - di-lo o próprio Ratzinger na sua autobiografia - "um importante sinal premonitório".

Os seus pais chamavam-se, muito apropriadamente, Maria e Joseph (José), e tinham já tido uma rapariga - Maria, como a mãe - e um outro rapaz, Georg, que aos 11 anos era já um dotado organista e viria a ser ordenado padre no mesmo dia que o irmão mais novo. Recebeu o nome de baptismo de um tio-avô paterno, que se doutorara em Teologia e chegara a ser eleito para o parlamento regional.
Os talentos musicais de Georg levaram-no, em 1964, à direcção do famoso coro juvenil da catedral de Regensburg, que recentemente adquiriu ainda maior notoriedade com as acusações de que vários dos jovens da escola a ele associada teriam sido vítimas de abusos sexuais durante os 30 anos que durou o longo consulado do irmão do Papa. Este alegou não ter sabido de nada, tendo apenas admitido que, de vez em quando, pregava "umas chapadas" aos rapazes.

O pai de Bento XVI era um comissário de polícia local e um "católico praticante", como hoje se diria. Bastante praticante, mesmo. Segundo o filho, aos domingos assistia sempre a três missas: às seis da manhã, às nove horas e à tarde. Além da devoção católica, pode-se especular que Ratzinger tenha também herdado do pai a vocação para policiar o correcto cumprimento das normas estabelecidas. E, tal como o pai, virá a fazê-lo em nome de uma autoridade superior.


Música sacra "versus" rock

Dessa Marktl am Inn onde nasceu, o Papa dificilmente guardará quaisquer recordações, uma vez que mal tinha feito dois anos quando a família se mudou para Tittmoning, uma pequena cidade nas margens do Salzbach, a poucas dezenas de quilómetros de Salzburgo, a terra natal de Mozart, que Ratzinger, de quem se diz ter apreciáveis dotes de pianista, coloca acima de qualquer outro compositor.

E a música não é, para este Papa, uma questão de somenos. "Uma Igreja que se limite apenas a fazer música corrente cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz", afirma na entrevista a Vittorio Messori. Lamenta, por isso, que a música sacra, após o Concílio Vaticano II, esteja hoje confinada a celebrações especiais e quase não se ouça nas igrejas de paróquia. Tudo para atrair esses jovens "cujo sentido acústico", diz, "foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes".

O futuro Bento XVI também pouco tempo ficou em Tittmoning. Em 1932, o pai pediu transferência para Aschau am Inn, uma aldeola onde, segundo a explicação avançada pelo próprio Ratzinger na sua autobiografia, se sentia mais protegido da crescente influência dos nazis nesses anos finais da República de Weimar. Mas a família não tardou a mudar-se de novo, desta vez para Traustein, onde Ratzinger frequentou o liceu e, a partir de 1939, o seminário menor. É também em Março desse ano que o regime nazi torna obrigatória a inscrição dos seminaristas na Juventude Hitleriana. Ratzinger não escapa, mas nunca terá participado dos encontros e actividades da organização.

Em 1943, vê-se obrigado a conciliar os estudos com o serviço militar, tendo sido mobilizado para as baterias antiaéreas. Após várias missões nos arredores de Munique, deram-lhe um posto nos serviços telefónicos, e conseguiu também um pequeno quarto só para si. Convivia com um grupo de católicos empenhados e dispunha de algum tempo livre e de considerável autonomia. E, sobretudo, tinha 16 anos, pelo que não será assim tão surpreendente a desarmante franqueza com que assume que esse caótico Verão de 1943 lhe "ficou gravado na memória como um período esplêndido".

Em Setembro de 1944 regressa a casa, em Traustein, para uma licença de poucos dias, antes de ser enviado para um campo de trabalho situado na fronteira da Áustria com a Hungria, onde, segundo conta, os seus superiores tentaram, sem êxito, levá-lo a alistar-se "voluntariamente" nas SS. No final de Novembro, está outra vez em Traustein, de serviço no quartel de infantaria. Afirma ter desertado pelos finais de Abril de 1945, tendo ficado uns dias escondido em casa de um marechal católico da Luftwaffe, amigo do pai, e depois na casa da família, nos arredores da cidade. É aí que, após a vitória dos Aliados, vem a ser identificado como soldado alemão pelas forças americanas. Passa ainda algumas semanas no campo de prisioneiros de Bad Aibling, até que, a 19 de Junho, é libertado.


O susto de Maio de 1968

Ratzinger tem 18 anos e esperam-no, agora, tempos consideravelmente mais tranquilos. Em 1946, juntamente com o seu irmão Georg, que fora ferido na guerra, entra para o seminário de Frisinga, onde, a par das aulas, vai devorando os livros que encontra na biblioteca da escola. Lê Dostoievski e romancistas franceses católicos como Claudel, Bernanos ou Mauriac. Entusiasma-se também com a geração de cientistas que revolucionara a física - Planck, Heisenberg, Einstein - e embrenha-se na filosofia do idealismo alemão e nas obras de Nietzsche e Bergson, de Jaspers e Heidegger. Afirma tê-lo marcado particularmente o encontro com o pensador judeu Martin Buber, expoente do personalismo de matriz religiosa.

Ratzinger prossegue depois os seus estudos na então recém-reaberta Faculdade de Teologia da Universidade de Munique, que fora encerrada pelos nazis em 1938. Em 1951, é ordenado padre pelo cardeal Faulhaber. No ano seguinte inicia a sua actividade docente na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising, ensinando teologia dogmática e fundamental. É o início de uma carreira académica bem-sucedida, mas não isenta de alguns percalços, como o de, já após se ter doutorado, em 1953, com a tese Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho, se ter arriscado a ver reprovado o seu trabalho de habilitação à livre docência - A Teologia da História em S. Boaventura -, que um dos arguentes, o teólogo Michael Schmaus, terá considerado perigosamente modernista.

Até ser nomeado arcebispo de Munique em 1977, irá ainda leccionar em Bona, Münster, Tubinga e, finalmente, na Universidade de Ratisbona, onde assumiu, em 1969, a cátedra de Dogmática. Estava ainda em Bona quando João XXIII convocou o Vaticano II, no qual participará, primeiro como consultor do cardeal Frings, arcebispo de Colónia, e, mais tarde, na qualidade de "teólogo do Concílio".

Um ano mais novo do que Ratzinger, Hans Küng foi outro dos jovens peritos nomeados por João XXIII. Logo após o encerramento do Vaticano II, Küng convence Ratzinger a ir ensinar Dogmática para a Universidade de Tubinga, onde este permanecerá entre 1966 e 1969. Serão anos decisivos. Enquanto Küng vira à esquerda e se torna o primeiro grande teólogo católico a contestar, no século XX, a doutrina da infalibilidade papal, Ratzinger horrorizava-se com as ondas de choque do Maio de 1968.

A crescente influência da filosofia existencialista nas faculdades de Teologia já alarmara o professor de Dogmática, que, com uma ponta de travessura, confessa a Seewald que chegou a "contestá-la com argumentos oriundos do pensamento marxista". Mas, no pós-Maio de 1968, Heidegger foi repentinamente substituído por Marx como paradigma cultural. E a "abordagem marxista", diz, "era incomparavelmente mais radical". Definindo-a como "um messianismo sem Deus", Ratzinger afirma que nesses anos de Tubinga pôde aperceber-se "directamente do rosto cruel desta devoção ateia", da "sanha com que se renunciava a qualquer reflexão moral, considerada um resíduo burguês".

Quando estudantes de Teologia Protestante lançaram panfletos em que consideravam a cruz de Cristo uma "expressão da adoração sado-masoquista da dor" e o Novo Testamento "um meio de enganar as massas em grande escala" - episódio que Ratzinger recorda em várias entrevistas -, achou que já vira o bastante. "Quem queria continuar a ser progressista", afirma na entrevista a Seewald, "tinha de vender o seu carácter".


"Ratzinger", dirá depois Küng, "rejeitou totalmente aquele caos de 1968, e creio que foi esse o ponto decisivo da sua mudança rumo a uma orientação conservadora".


Ascensão em Roma


A carreira académica de Ratzinger encerra-se quando é nomeado arcebispo de Munique e Frisinga, por Paulo VI, em Março de 1977. Três meses depois é elevado a cardeal. Um ano mais tarde é já um dos homens chamados a escolher o sucessor de Paulo VI, o cardeal Albino Luciano, que, numa homenagem aos dois Papas conciliares, escolheu o nome de João Paulo I. Foi nos encontros que precederam o conclave que Ratzinger conheceu pessoalmente Karol Wojtyla, com quem até então se limitara a trocar livros e alguma correspondência.

João Paulo I morreu um mês após ter sido eleito e, no novo conclave, Ratzinger aposta no polaco, quer para evitar a eleição do ultra-conservador cardeal Giuseppe Siri, então arcebispo de Génova, quer para neutralizar viragens à esquerda. Chegou mesmo a dar uma extensa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeiner, na qual alertava para os riscos que via na eleição.

A carreira académica dava lugar a um não menos bem-sucedido trajecto na Cúria Romana. Em 1981, é nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mostra-se particularmente duro com as Teologias da Libertação, cuja tónica política anticapitalista talvez lhe avivasse a má memória que reteve do período que se seguiu ao Maio de 68. Intervém também, sempre no sentido de manter a ortodoxia vigente, em todas as grandes polémicas que atravessaram a Igreja ao longo dos últimos anos, como o celibato dos padres ou a ordenação de mulheres. Irrita muita gente, a ponto de, em 1989, dezenas de teólogos terem pedido, na chamada Declaração de Colónia, que a congregação presidida por Ratzinger revelasse "mais pluralismo" e "menos ingerências".

Um dos temas pelos quais se interessou mais foi o diálogo com as restantes confissões cristãs e com o judaísmo e o islão. É um dos pontos em que se distingue de João Paulo II. Este pediu desculpa pelos crimes da Igreja, pregou numa igreja luterana, rezou numa mesquita e junto ao Muro das Lamentações. Ratzinger considerava nos anos 80, e provavelmente ainda considera, que "as atitudes de um certo ecumenismo católico pós-conciliar foram marcadas por uma espécie de masoquismo, uma necessidade um tanto perversa de [a Igreja Católica] se reconhecer culpada por todos os desastres da História".

Não terá sido por acaso que, quando João Paulo II começou a falar da "purificação da memória" da Igreja e dos pedidos de perdão dos erros históricos, a pretexto do jubileu do ano 2000, se comentou que Ratzinger se opunha a essa ideia.

A sua tese é a de que o diálogo com outras confissões só pode ser frutuoso se cada um dos interlocutores assumir claramente as suas posições e recusar uma posição relativista, que, argumenta, subalterniza o critério da verdade. O seu texto Dominus Iesus, no qual reafirma Cristo como o único caminho para a Salvação e defende a superioridade da Igreja Católica em relação às restantes confissões cristãs, provocou muitas reacções negativas, mas é consistente com esta sua perspectiva.

Em relação aos judeus, a sua perspectiva é mais funda. Para Bento XVI, como para João Paulo II, o judaísmo tem um lugar à parte entre os monoteísmos. Mas a relação especial não deve fazer "esquecer e subestimar as diferenças existentes", como dizia na sinagoga de Colónia, quando voltou à Alemanha, já como Papa, para presidir à Jornada Mundial da Juventude, em Agosto de 2005.

É na questão da raiz judaica do cristianismo que Ratzinger mais avança, com base em argumentos bíblicos e teológicos e menos simbólicos e afectivos, como era mais próprio de João Paulo II: em 1997, num discurso na Academia das Ciências Morais e Políticas de Paris, o ainda cardeal dizia que cristãos e judeus estão num plano semelhante de espera do Messias: "[Na fé de Israel, são essenciais a Torá e, por outro lado,] o olhar de esperança, a espera do Messias (...), isto é, a certeza de que o próprio Deus entrará nesta história e realizará a justiça, à qual apenas podemos avizinhar-nos de formas muito imperfeitas. (...) Também a Igreja espera o Messias, que já conhece e à qual, antes de mais, ele manifestará a sua glória."
Contra o relativismo

No conclave de Abril de 2005, Ratzinger posicionou-se claramente como o homem certo para ser escolhido. Em virtude do seu cargo de decano dos cardeais, foi ele a presidir, no período de transição, ao funeral de João Paulo II, às reuniões preparatórias do conclave e à missa de início solene do acto de eleição pontifícia. Na sua homilia, ficou célebre a referência crítica aos "ventos de doutrina" que agitaram "muitos cristãos" e o apelo à necessidade de uma "fé clara" contra o "relativismo".

Foram argumentos decisivos - a par, claro, do seu brilhantismo intelectual, que se destacava entre a maior parte dos cardeais - para que fosse ele o escolhido. A opção pelo nome de Bento não é estranha a outro tema central do seu pensamento: a Europa. Na véspera da morte de João Paulo II, Ratzinger estava em Subiaco, onde São Bento, padroeiro do continente, começou a aventura do monaquismo ocidental, que marcaria decisivamente a cultura e a geografia europeias. Falou sobre a Europa e da necessidade de "homens que, por meio de uma fé iluminada, tornem Deus credível". Bento foi, além disso, o nome do Papa da I Guerra Mundial, que tentou mediar o conflito.


Ratzinger referiu-se ao que considerava a crise da Europa - um conceito sobretudo "cultural e histórico" -, em tudo semelhante à do "naufragado Império Romano". No seu diagnóstico, tocou vários dos aspectos que o preocupa(va)m: "A Europa aparece, nesta hora do seu brilho e sucesso exterior, vazia por dentro", estando "atingida por uma crise de circulação vital". À extinção das suas forças sustentadoras "parece corresponder igualmente o desaparecimento progressivo da Europa étnica". E, defende Ratiznger, decresce o "interesse pelo futuro" e as crianças "são consideradas como uma ameaça para o presente".

Eleito a 19 de Abril de 2005 para substituir "o grande Papa João Paulo II", como o próprio afirmou, o "humilde" Ratzinger começou por criar expectativas no diálogo ecuménico, estagnado nos últimos anos do pontificado de Wojtyla. Por várias vezes, e logo na primeira missa que celebrou com os cardeais enquanto Papa, a 20 de Abril, Bento XVI referiu-se à sua "prioridade" ecuménica, assumindo o "compromisso" de "trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo".

Em diferentes situações, o novo Papa referiu-se à necessidade de "gestos concretos" nessa aproximação. Mas até hoje, o mais importante que conseguiu foi desanuviar o ambiente com a Igreja Ortodoxa (sobretudo a Igreja Russa, o que, admita-se, não é pouco). A aproximação aos anglicanos ficou toldada pela divisão no interior da Comunhão Anglicana e pela decisão de criar uma estrutura própria para os padres e bispos anglicanos que querem aderir à Igreja Católica em protesto contra a ordenação de mulheres e de homossexuais no anglicanismo - uma decisão cujos contornos exactos permanecem obscuros.

Fonte: http://www.publico.pt/

06 julho 2011

DUAS ASAS: A teologia segundo Ratzinger

DUAS ASAS: A teologia segundo Ratzinger: "Os três premiados foram:Manlio Simonetti (na foto, recebendo o prêmio das mãos do papa), estudioso de literatura cristã antiga e da patrísti..."

18 maio 2011

A salvação e a opção pela racionalidade no cristianismo

Pedro Ravazzano

O homem é, verdadeiramente, religioso, não só afirma a realidade do que não vê como considera aquilo que não vê como mais real do que o que se vê. Ademais, fundamentado a sua crença naquilo que não é ratificado pela empiria, o homem religioso tornou-se alvo da crítica moderna que se levanta contra a religião numa multiplicidade de argumentos.

L. Feurbach considera a religião como conseqüência da ignorância e da alienação, nada mais do que a projeção do homem em Deus como plenitude dos anseios humanos – homo hominis Deus. Destarte, a derrocada de “Deus” é o meio para o rompimento dos grilhões que aprisionam a capacidade do homem. K. Marx já relaciona a religião com a opressão, o ópio do povo que anestesia a consciência da classe explorada, assim, criação burguesa. S. Freud, por sua vez, referencia a crença religiosa com a neurose coletiva. Entretanto, ainda que exista a possibilidade da demonstração racional da existência de Deus – cinco vias de Santo Tomás – o fundamento filosófico da experiência religiosa vem apenas depois da crença.

O ordo ad Deum – orientado até Deus – do homem é reflexo da sua condição de ser espiritual. Não obstante, a religião é muito contextual, tem todos os condicionamentos da natureza humana e a imagem que temos de Deus é dependente das nossas experiências.

A sociedade religiosa, composta por pessoas unidas por um fim que supera as capacidades individuais, é composta pelos atos religiosos, objetos religiosos – com um valor atribuído pela comunidade e separado do uso profano – e, fundamentalmente, a consciência religiosa. A experiência fenomenológica, religiosa, que gera o sentimento religioso, leva em conta a dimensão histórica, psicológica, interpessoal, material, da religião.

Ainda que, por natureza, o homem busque a Verdade, não necessariamente a conhece. A religião pode, então, ser compreendida como a disposição da vontade na qual é dado livremente culto e honra a Deus, ainda que a ordenação natural do homem a Deus nem sempre seja reconhecida pelo próprio homem. Desse modo, a negação da religião é conseqüência do rechaço moral. Ao ter a disposição de render culto a Deus o homem exerce a virtude da “Religião”. Destarte, a religião ajuda o homem na medida em que fomenta a sua liberdade, um influxo que respeita a liberdade e encaminha para a Verdade.

Entretanto, o cristianismo ainda que parta dessa visão geral do fenômeno religioso tem em suas notas fundamentais uma radical distinção com todas as manifestações religiosas, do Deus que rompe o seu isolamento transcendental e fala aos homens como homem. Para a fé cristã todos os seres humanos são chamados à salvação – desde já se destaca o contra-senso da heresia da predestinação negativa dos calvinistas. Não obstante, existe a necessidade da conciliação entre essa vontade universal salvífica de Deus e a necessidade da Igreja.

Pontuamos, outrossim, a importância de diferenciar o cristianismo, em sua real compreensão, do cristianismo débil, isto é, uma crença que não tem noção forte da Verdade, que nega a objetividade da Revelação, fundamentado numa experiência sem conteúdo - o reino da experiência em detrimento da objetividade da fé. A heresia do bem-estar rechaça a exatidão dogmática substituindo-a pelo subjetivismo radical da experiência individual. Não se deve, em hipótese alguma, confundir a vida espiritual com a psicologia, afinal o estado de graça não necessariamente está unido ao bem estar que é de caráter emocional.

O cristianismo tornou-se catalisador de realidades culturais diferentes, dando origem a uma nova cultura – "Majestosa, a princesa real vem chegando, vestida de ricos brocados de ouro". O concílio Vaticano II inaugurou uma leitura teológica que, ainda que não rompa com a Tradição, mudou a perspectiva em relação à teologia das religiões.

Antes de tudo devemos partir de algumas premissas fundamentais: o reconhecimento da capacidade do intelecto humano de conhecer a Verdade, a Revelação de Deus como critério último de verificação, e recursos para compreender a Verdade revelada. Ademais, tanto a vontade salvífica universal e a necessidade da Igreja na salvação devem também ser entendidas como verdade.

No tocante à reflexão da teologia das religiões o Magistério – que não faz teologia, mas testemunha a fé e a defende – impõe os limites. O documento Dominus Iesus, por exemplo, coloca alguns pontos basilares nessa análise: a plenitude e definitividade da verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a unidade indissolúvel entre a economia do Logos e do Espírito Santo, a unidade e universalidade do mistério salvífico de Cristo, a unidade e unicidade da Igreja de Cristo, prolongação da ação de Cristo no mundo.

Apenas o cristianismo realiza de modo completo e definitivo a relação do homem com Deus. A definitividade absoluta da fé cristã vem da sua opção pela racionalidade, por isso a crise da verdade leva à crise do cristianismo. Do mesmo modo, a crise da metafísica – "A crise do mundo moderno é uma crise metafísica" Pe. Leonel Franca – também problematiza a realidade da Civilização Ocidental atual.

O cristianismo rompe com o mito do eterno retorno fundamental nas religiões tradicionais. O in illo tempore não é mais o tempo mítico, mas sim o hoje já que Cristo é manifestação de Deus na história que se prolonga no tempo nos sacramentos e na Igreja. O cristianismo fez a opção preferencial pela racionalidade, confiança na capacidade do homem de alcançar a Verdade por meio do pensamento, harmonia entre fé e razão rompida por Guilherme de Ockham.

Santo Tomás coloca que só na Igreja há os sacramentos e a fé necessárias para a salvação. Esta, por sua vez, pode ser conquistada por duas vias: a fé explícita; confessar a fé em Cristo, e a fé implícita; a salvação pelos méritos dos sacramentos, confiança na Providência de Deus e indiretamente confiança no amor encarnado e de sua ação na história. Ademais, a infidelidade se configura junto àqueles que se obstinam em ir contra a fé previamente anunciada e aos que nunca ouviram, que vivem em ignorância. Os primeiros são passíveis de culpa enquanto os segundos são inculpáveis e, caso sejam fiéis à sua consciência, seguindo a lei natural, gozam da fé implícita.

Francisco de Vitória dissera que os pagãos eram condenados pelos seus pecados mortais e pela idolatria, mas seguindo a lei natural eram iluminados por Cristo. Domingo de Soto afirmara o mesmo em relação aos judeus e muçulmanos. A Revelação final é Cristo, mas ainda que o seu anúncio dependa, obviamente, da linguagem, dos símbolos e da forma, não se pode aceitar o pluralismo de iure, como vias alternativas à fé cristã queridas por Deus. Ainda que os confins visíveis da Igreja não sejam sinônimos dos confins espirituais, como colocara Joseph Ratzinger.

Fonte: www.acarajeconservador.blogspot.com

05 maio 2011

As razões do nome Bento XVI

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

Sinto-me feliz por vos receber e dirijo uma cordial saudação a quantos estão aqui presentes, assim como aos que nos seguem mediante a rádio e a televisão. Como já expressei no meu primeiro encontro com os Senhores Cardeais, precisamente na quarta-feira da semana passada na Capela Sistina, experimento no ânimo sentimentos entre si contrastantes nestes dias de início do meu ministério petrino: admiração e gratidão em relação a Deus que surpreendeu antes de tudo a mim mesmo, chamando-me a suceder ao apóstolo Pedro; trepidação interior perante a grandeza da tarefa e das responsabilidades que me foram confiadas. Contudo dá-me serenidade e alegria a certeza da ajuda de Deus, da sua Mãe Santíssima, a Virgem Maria, e dos santos Padroeiros; é para mim de apoio também a proximidade espiritual de todo o Povo de Deus ao qual, como no domingo passado tive a ocasião de repetir, continuo a pedir que me acompanheis com a oração insistente.

Depois da piedosa partida do meu venerado predecessor João Paulo II, recomeçam hoje as tradicionais Audiências gerais da quarta-feira. Voltamos assim à normalidade. Neste primeiro encontro gostaria antes de tudo de falar sobre o nome que escolhi ao tornar-me Bispo de Roma e Pastor universal da Igreja. Quis chamar-me Bento XVI para me relacionar idealmente com o venerado Pontífice Bento XV, que guiou a Igreja num período atormentado devido ao primeiro conflito mundial. Ele foi um profeta corajoso e autêntico de paz e comprometeu-se com coragem infatigável primeiro para evitar o drama da guerra e depois para limitar as consequências nefastas. Nas suas pegadas desejo colocar o meu ministério ao serviço da reconciliação e da harmonia entre os homens e os povos, profundamente convencido de que o grande bem da paz é antes de tudo dom de Deus, dom frágil e precioso que deve ser invocado, tutelado e construído dia após dia com o contributo de todos.

Além disso, o nome Bento recorda também a extraordinária figura do grande "Patriarca do monaquismo ocidental", São Bento de Núrsia, co-padroeiro da Europa juntamente com os santos Cirilo e Metódio e as mulheres santas, Brígida da Suécia, Catarina de Sena e Edith Stein. A expansão progressiva da Ordem beneditina por ele fundada exerceu uma influência enorme na difusão do cristianismo em todo o Continente. Por isso, São Bento é muito venerado também na Alemanha e, em particular, na Baviera, a minha terra de origem; constitui um ponto de referência fundamental para a unidade da Europa e uma forte chamada às irrenunciáveis raízes cristãs da sua cultura e da sua civilização.

Deste Pai do Monaquismo ocidental conhecemos a recomendação deixada aos monges na sua Regra: "Nada anteponham absolutamente a Cristo" (Regra 72, 11; cf. 4, 21). No início do meu serviço como Sucessor de Pedro peço a São Bento que nos ajude a manter firme a centralidade de Cristo na nossa existência. Que ele esteja sempre no primeiro lugar nos nossos pensamentos e em cada uma das nossas actividades!

O meu pensamento volta com afecto ao venerado predecessor João Paulo II, ao qual somos devedores de uma extraordinária herança espiritual. "As nossas comunidades cristãs escreveu na Carta Apostólica Novo millennio ineunte devem tornar-se autênticas escolas de oração, onde o encontro com Cristo não se exprima apenas em pedidos de ajuda, mas também em acção de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, fervor e afectos, até se chegar a um coração verdadeiramente apaixonado", como foi João Paulo II (33). Ele mesmo procurou realizar estas indicações dedicando as catequeses da quarta-feira dos últimos tempos ao comentário dos Salmos das Laudes e das Vésperas. Como ele fez no início do seu pontificado, quando quis prosseguir as reflexões iniciadas pelo seu Predecessor sobre as virtudes cristãs (cf. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, I [1978], pp. 60-63), assim também eu pretendo repropor nos próximos encontros semanais o comentário por ele preparado sobre a segunda parte dos Salmos e Cânticos que compõem as vésperas. Por conseguinte, na próxima quarta-feira retomarei precisamente de onde se tinham interrompido as suas catequeses, na Audiência geral de 26 de Janeiro passado.

Queridos amigos, obrigado de novo pela vossa visita, obrigado pelo afecto com que me circundais. São sentimentos que retribuo cordialmente com uma especial bênção, que concedo a vós aqui presentes, aos vossos familiares e a todas as pessoas queridas.
BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

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A eficácia da Redenção não começa no ano zero ou trinta, mas vai também ao passado, abrange o passado, todos os homens de todos os tempos

ENTREVISTA A BENTO XVI
TRANSMITIDA NA ITÁLIA PELA RAI UNO
NO PROGRAMA «À SUA IMAGEM.
PERGUNTAS SOBRE JESUS»



Sexta-feira, 22 de Abril de 2011


Santo Padre, desejo agradecer-lhe a sua presença que nos enche de alegria e nos ajuda a recordar que hoje é o dia em que Jesus demonstra do modo mais radical o Seu amor, isto é, morrendo na cruz sendo inocente. É precisamente sobre o tema da dor inocente a primeira pergunta feita por uma criança japonesa de sete anos, que lhe diz: «Chamo-me Helena, sou japonesa e tenho sete anos. Sinto tanto medo porque a casa na qual me sentia segura tremeu tanto, e muitos dos meus coetâneos morreram. Não posso brincar no parque. Pergunto: por que devo ter tanto medo? Por que as crianças devem sentir tanta tristeza? Peço ao Papa, que fala com Deus, que me explique isto».


Querida Helena, saúdo-te de coração. Também surgem a mim as mesmas perguntas: por que é assim? Por que deveis sofrer tanto, enquanto outros vivem no conforto? E não temos as respostas, mas sabemos que Jesus sofreu como vós, inocente, que o Deus verdadeiro que se mostra em Jesus, está convosco. Isto parece-me muito importante, mesmo se não temos respostas, se permanece a tristeza: Deus está convosco, e tende a certeza que isto vos ajudará. E um dia poderemos até compreender por que era assim. Neste momento parece-me importante que saibais: «Deus ama-me», mesmo se parece que não me conhece. Não, ama-me, está comigo, e deveis ter a certeza de que no mundo, no universo, muitos estão convosco, pensam em vós, fazem na medida que lhes é possível algo por vós, para vos ajudar. E estar conscientes de que, um dia, eu compreenderei que este sofrimento não era vazio, não era em vão, mas que por detrás há um projecto bom, um projecto de amor. Não é um caso. Tem a certeza disto, nós estamos contigo, com todas as crianças japonesas que sofrem, queremos ajudar-vos com a oração, com a nossa oração, com as nossas acções e tende a certeza de que Deus vos ajuda. E neste sentido rezamos juntos para que para vós chegue quanto antes a luz.


A segunda pergunta apresenta-nos um calvário, porque temos uma mãe aos pés da cruz de um filho. É italiana, chama-se Maria Teresa, e diz-Lhe: «Santidade, a alma deste meu filho Francesco, em estado vegetativo desde o dia de Páscoa de 2009, abandonou o seu corpo, dado que ele já não está consciente, ou ainda está perto dele?».

Certamente a alma ainda está presente no corpo. Talvez, a situação, é como a de uma guitarra cujas cordas se partiram, assim não pode tocar. Também o instrumento do corpo é frágil, é vulnerável, e a alma não pode tocar, por assim dizer, mas permanece presente. Tenho também a certeza de que esta alma escondida sente em profundidade o vosso amor, mesmo se não compreende os pormenores, as palavras, etc., mas a presença de um amor sente-a. E por isso esta vossa presença, queridos pais, querida mãe, ao lado dele, por muitas horas todos os dias, é um acto verdadeiro de amor de grande valor, porque esta presença entra na profundidade desta alma escondida e o vosso acto é, por conseguinte, também um testemunho de fé em Deus, de fé no homem, de fé, digamos de compromisso pela vida, de respeito pela vida humana, até nas situações mais tristes. Por conseguinte, encorajo-vos a continuar, a saber que prestais um grande serviço à humanidade com este sinal de confiança, com este sinal de respeito da vida, com este amor por um corpo dilacerado, por uma alma sofredora.

 
A terceira pergunta leva-nos ao Iraque, entre os jovens de Bagdad, cristãos perseguidos que lhe enviam esta pergunta: «Salve, do Iraque, Santo Padre – dizem – Nós cristãos de Bagdad somos perseguidos como Jesus. Santo Padre, no seu parecer, de que modo podemos ajudar a nossa comunidade cristã a reconsiderar o desejo de emigrar para outros países, convencendo-a que partir não é a única solução?».


Em primeiro lugar, gostaria de saudar de coração todos os cristãos do Iraque, nossos irmãos, e devo dizer que rezo todos os dias pelos cristãos no Iraque. São os nossos irmãos sofredores, assim como noutras terras do mundo, e portanto estão particularmente próximos do nosso coração e nós devemos fazer, no que está ao nosso alcance, o possível para que possam permanecer, para que possam resistir à tentação de migrar, porque é muito compreensível nas condições em que vivem. Eu diria que é importante que estejamos próximos de vós, queridos irmãos no Iraque, que vos queremos ajudar, mesmo quando vindes, receber-vos realmente como irmãos. E naturalmente, as instituições, quantos têm na realidade uma possibilidade de fazer algo no Iraque por vós, devem fazê-lo. A Santa Sé está em contacto permanente com as diversas comunidades, não só com as comunidades católicas, com as outras comunidades cristãs, mas também com os irmãos muçulmanos, quer xiitas quer sunitas. E queremos fazer um trabalho de reconciliação, de compreensão, também com o governo, ajudá-lo neste caminho difícil de recompor uma sociedade dilacerada. Porque é este o problema, que a sociedade está profundamente dividida, dilacerada, que já não há esta consciência: «Nós somos nas diversidades um povo com uma história comum, onde cada qual tem o seu lugar». E devem reconstruir esta consciência de que, na diversidade, têm uma história em comum, uma comum determinação. E nós queremos, em diálogo, precisamente com os diversos grupos, ajudar o processo de reconstrução e encorajar-vos, queridos irmãos cristãos no Iraque, a ter confiança, paciência, confiança em Deus, a colaborar neste processo difícil. Tende a certeza da nossa oração.


A próxima pergunta é-lhe dirigida por uma mulher muçulmana da Costa do Marfim, um país que está em guerra há anos. Esta senhora, chama-se Bintù, e envia-lhe uma saudação em árabe que diz o seguinte: «Que Deus esteja entre todas as palavras que nos diremos e que Deus esteja contigo». É uma expressão que eles usam quando iniciam um discurso. E depois prossegue em francês: «Querido Santo Padre, aqui na Costa do Marfim, sempre vivemos em harmonia cristãos e muçulmanos. As famílias com frequência são formadas por membros de ambas as religiões; existe também uma diversidade de etnias, mas nunca tivemos problemas. Agora tudo mudou: a crise que vivemos, causada pela política, está a semear divisões. Quantos inocentes perderam a vida! Quantos refugiados, quantas mães e crianças traumatizadas! Os mensageiros exortaram à paz, os profetas exortaram à paz. Jesus é um homem de paz. Vossa Santidade, como Embaixador de Jesus, o que aconselharia para o nosso país?».

Gostaria de responder à saudação: Deus esteja contigo, te ajude sempre. E devo dizer que recebi cartas dilacerantes da Costa do Marfim, nas quais vejo toda a tristeza, a profundidade do sofrimento, e fico triste por podermos fazer tão pouco. Podemos fazer uma coisa, sempre: estar em oração convosco, e na medida do possível, faremos obras de caridade e sobretudo queremos ajudar, segundo as nossas possibilidades, os contactos políticos, humanos. Encarreguei o cardeal Turkson, que é presidente do nosso Conselho «Justiça e Paz» de ir à Costa do Marfim e procurar mediar, falar com os diversos grupos, com as diversas pessoas para encorajar um novo início. E sobretudo queremos fazer ouvir a voz de Jesus, no qual também a Senhora crê como profeta. Ele era sempre o homem da paz. Poderíamos esperar que, quando Deus viesse à terra, teria sido um homem de grande força, destruiria os poderes contrários, que seria um homem de uma violência forte como instrumento de paz. Nada disto: veio débil, veio apenas com a força do amor, totalmente sem violência até ser crucificado. E isto mostra-nos o verdadeiro rosto de Deus, que a violência nunca vem de Deus, nunca ajuda a dar as coisas boas, mas é um meio destruidor e não é o caminho para sair das dificuldades. Por conseguinte, é uma voz forte contra qualquer tipo de violência. E convido veementemente todas as partes a renunciar à violência, a procurar os caminhos da paz. Não podeis servir a recomposição do vosso povo com meios de violência, mesmo se pensais que tendes razão. O único caminho é renunciar à violência, recomeçar com o diálogo, com tentativas para encontrar juntos a paz, com nova atenção uns pelos outros, com nova disponibilidade a abrir-vos uns aos outros. E esta, querida Senhora, é a verdadeira mensagem de Jesus: procurai a paz com os meios da paz e abandonai a violência. Nós rezamos por vós, para que todos os componentes da vossa sociedade ouçam esta voz de Jesus e que desta forma volte a paz e a comunhão.


Santo Padre, a próxima pergunta é sobre o tema da morte e da Ressurreição de Jesus, e vem da Itália. É a seguinte: «Santidade, o que faz Jesus no espaço de tempo entre a morte e a Ressurreição? E visto que na oração do Credo se diz que Jesus, depois da morte, desceu à mansão dos mortos, podemos pensar que será uma coisa que acontecerá também a nós, depois da morte, antes de subir ao céu?».

Antes de tudo, não devemos imaginar esta descida da alma de Jesus como uma viagem geográfica, local, de um continente para outro. É uma viagem da alma. Deve-se ter presente que a alma de Jesus toca sempre o Pai, está sempre em contacto com o Pai, mas ao mesmo tempo esta alma humana expande-se até aos extremos confins do ser humano. Neste sentido, vai em profundidade, vai aos dispersos, vai a todos os que não chegaram à meta da sua vida, e assim transcende os continentes do passado. Esta palavra da descida do Senhor à mansão dos mortos quer sobretudo significar que também o passado é alcançado por Jesus, que a eficácia da Redenção não começa no ano zero ou trinta, mas vai também ao passado, abrange o passado, todos os homens de todos os tempos. Os Padres dizem, com uma imagem muito bonita, que Jesus toma pela mão Adão e Eva, isto é, a humanidade, e a guia em frente, guia-a para o alto. E cria deste modo o acesso a Deus, porque o homem, por si, não pode chegar à altura de Deus. Ele mesmo, sendo homem, tomando o homem pela mão, abre o acesso, abre o quê? A realidade a que nós chamamos Céu. Portanto esta descida à mansão dos mortos, ou seja na profundidade do passado da humanidade, é uma parte essencial da missão de Jesus, da sua missão de Redentor e não se aplica a nós. A nossa vida é diversa, nós já somos remidos pelo Senhor e chegamos diante do rosto do Juiz, depois da nossa morte, sob o olhar de Jesus, e este olhar por um lado será purificador: penso que todos nós, em maior ou menor medida, teremos necessidade de purificação. O olhar de Jesus purifica-nos e depois torna-nos capazes de viver com Deus, de viver com os Santos, de viver sobretudo em comunhão com os nossos entes queridos que nos precederam.

Também a próxima pergunta é sobre o tema da Ressureição e provém da Itália: «Santidade, quando as mulheres vão ao sepulcro, no domingo depois da morte de Jesus, não reconhecem o Mestre, confundem-no com outro. Acontece também aos apóstolos: Jesus tem que mostrar as feridas, partir o pão para ser reconhecido, precisamente, pelos gestos. É um corpo verdadeiro, de carne, mas também um corpo glorioso. O facto de que o seu corpo ressuscitado não possua as mesmas feições do de antes, o que significa? O que significa exactamente corpo glorioso? E será assim para nós a Ressurreição?».



Naturalmente, não podemos definir o corpo glorioso porque está além das nossas experiências. Podemos unicamente registar os sinais que Jesus nos deu para compreender pelo menos um pouco em que direcção devemos procurar esta realidade. Primeiro sinal: o túmulo está vazio. Isto é, Jesus não deixou o seu corpo à corrupção, mostrou-nos que também a matéria está destinada à eternidade, que realmente ressuscitou, que não permanece uma coisa perdida. Jesus tomou consigo também a matéria, e assim também a matéria tem a promessa da eternidade. Mas depois assumiu esta matéria numa nova condição de vida, este é o segundo ponto: Jesus já não morre, ou seja, está acima das leis da biologia, da física, porque submetido a elas morre-se. Por conseguinte, há uma nova condição, diversa, que nós não conhecemos, mas que se mostra no facto que Jesus, e é a grande promessa para todos nós que há um mundo novo, uma vida nova, rumo à qual nós estamos a caminho. E, estando nestas condições, Jesus tem a possibilidade de se fazer tocar, de dar a mão aos seus, de comer com eles, mas contudo está acima das condições da vida biológica, como nós a vivemos. E sabemos que, por um lado, é um verdadeiro homem, não um fantasma, que vive uma vida verdadeira, mas uma vida nova que já não está submetida à morte e que é a nossa grande promessa. É importante compreender isto, pelo menos na medida do possível, no que se refere à Eucaristia: na Eucaristia, o Senhor doa-nos o seu corpo glorioso, não nos dá a comer carne no sentido da biologia, doa-se a si mesmo, esta novidade que é Ele, entra no nosso ser homens, no nosso, no meu ser pessoa, como pessoa, e toca-nos interiormente com o seu ser, de modo que podemos deixar-nos penetrar pela sua presença, transformar na sua presença. É um aspecto importante, porque assim já estamos em contacto com esta nova vida, este novo tipo de vida, tendo Ele entrado em mim, e eu saí de mim e propago-me numa nova dimensão de vida. Eu penso que este aspecto da promessa, da realidade que Ele se doa a mim e me faz sair de mim, para o alto, é o aspecto mais importante: não se trata de registar coisas que não podemos compreender, mas de estar a caminho rumo à novidade que começa, sempre, de novo, na Eucaristia.

Santo Padre, a última pergunta é sobre Maria. Aos pés da cruz, assistimos a um diálogo comovedor entre Jesus, sua mãe e João, no qual Jesus diz a Maria: «Eis aí o teu Filho», e a João, «Eis a tua mãe». No seu último livro «Jesus de Nazaré», Vossa Santidade define-o «uma última ordem de Jesus». Como devemos entender estas palavras? Que significado tinham naquele momento e que significado têm hoje? E em tema de recomendação, tenciona renovar uma consagração à Virgem no início deste novo milénio?

 
Estas palavras de Jesus são sobretudo um gesto muito humano. Vemos Jesus como verdadeiro homem que faz um gesto humano, um gesto de amor pela mãe e confia a mãe ao jovem João para que tenha protecção. Uma mulher sozinha, no Oriente, naquele tempo, encontrava-se numa situação impossível. Confia a mãe a este jovem e ao jovem dá a mãe, portanto Jesus realmente age como homem com um sentimento profundamente humano. Isto parece-me muito belo, muito importante, que antes de qualquer teologia vemos nisto a verdadeira humanidade, o verdadeiro humanismo de Jesus. Mas naturalmente isto realiza diversas dimensões, não se refere só a este momento, mas diz respeito a toda a história. Em João Jesus confia todos nós, toda a Igreja, todos os discípulos futuros, à mãe e a mãe a nós. E isto realizou-se ao longo da história: cada vez mais a humanidade e os cristãos compreenderam que a mãe de Jesus é a sua mãe. E cada vez mais se recomendaram à Mãe: pensemos nos grandes santuários, pensemos nesta devoção a Maria onde o povo sente cada vez mais «Esta é a tua Mãe». E também alguns que quase têm dificuldade de acesso a Jesus na sua grandeza de Filho de Deus, se recomendam sem dificuldade à Mãe. Há quem diz: «Mas isto não tem fundamento bíblico!». Aqui responderia com São Gregório Magno: «Ao ler — diz ele — crescem as palavras da Escritura». Ou seja, desenvolvem-se na realidade, crescem, e cada vez mais na história se desenvolve esta Palavra. Vemos como todos podemos ser gratos porque a Mãe existe realmente, a todos nós é dada uma mãe. E podemos, com grande confiança, ir ter com esta Mãe, que é Mãe também para cada um dos cristãos. E por outro lado é válido de igual modo que a Mãe expressa também a Igreja. Não podemos ser cristãos sozinhos, com um cristianismo construído segundo a minha ideia. A Mãe é imagem da Igreja, da Mãe-Igreja, e confiando-nos a Maria devemos confiar-nos também à Igreja, viver a Igreja, ser a Igreja com Maria. E assim chego ao ponto da entrega: os Papas — quer Pio xii, quer Paulo vi, quer João Paulo ii — fizeram um grande acto de entrega a Nossa Senhora e parece-me, como gesto diante da humanidade, diante de Maria, que era um gesto muito importante. Penso que agora seja importante interiorizar este aspecto, deixar penetrar, realizá-lo em nós mesmos. Neste sentido, fui a alguns grandes santuários marianos no mundo: Lourdes, Fátima, Częstochowa, Altötting..., sempre com este sentido de concretização, de interiorizar este acto de entrega, para que se torne realmente o nosso acto. Penso que o acto grande, público, tenha sido feito. Talvez um dia seja necessário repeti-lo, mas no momento parece-me mais importante vivê-lo, realizá-lo, entrar nesta entrega, para que seja realmente nossa. Por exemplo, em Fátima, vi como as milhares de pessoas presentes entraram realmente nesta entrega, se confiaram, concretizaram em si mesmas, para si mesmas, esta entrega. Assim ela torna-se realidade na Igreja viva e desta forma cresce também a Igreja. A entrega comum a Maria, o deixar-se todos penetrar por esta presença e formar, entrar em comunhão com Maria, torna-nos Igreja, juntamente com Maria, realmente esta esposa de Cristo. Por conseguinte, actualmente não tenho a intenção de um novo acto público de entrega, mas por isso mesmo gostaria de convidar a entrar nesta entrega já feita, para que seja realidade vivida por nós todos os dias e assim cresça uma Igreja realmente mariana, que é Mãe e Esposa e Filha de Jesus.

 
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